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NOTÍCIAS 23/09/2026

Como estimar os trechos corríveis no dia da prova

Corrível não é sinónimo de plano. Saiba dividir um percurso de trail por inclinação, piso, altitude e fadiga e transformar essa leitura num plano de corrida e caminhada, com tempos de passagem realistas nos abastecimentos.

Como estimar os trechos corríveis no dia da prova

Um percurso pode somar 29 km de singletrack e, mesmo assim, só ter 18 que se conseguem realmente correr a ritmo de prova. Saber estimar a parte corrível antes da partida evita que chegue a uma prova de montanha com um plano de ritmos de estrada. Essa leitura altera os objetivos de esforço, as passagens pelos abastecimentos, o plano de alimentação e aquilo que pode esperar de si próprio quando o cronómetro arrancar.

Corrível não é sinónimo de plano. Quer dizer que consegue manter uma passada de corrida regular, a um esforço ajustado à distância da prova. Uma subida em terra a 7% pode correr-se durante 20 minutos no arranque de um 25 km. Essa mesma subida, ao quilómetro 68 de um 100 km, depois de o calor, a altitude e 2.400 m de D+ terem cobrado a sua fatura, passa muito provavelmente a fazer-se a caminhar.

Não se trata de classificar cada segmento como corrida ou caminhada com uma precisão que não existe. Trata-se de perceber onde correr é eficiente, onde a caminhada forte rende mais pelo esforço que custa e onde é o terreno que manda no ritmo, por melhor que seja a sua forma.

Comece pelo perfil do percurso, não pela distância total

A distância total esconde as decisões que realmente contam. Um 50 km com 1.500 m de D+ em estradões florestais roláveis pode correr-se muito mais do que um 30 km com 1.800 m de D+ em trilhos de montanha íngremes, técnicos e cheios de pedra solta. Comece por dividir o percurso em secções lógicas: subidas, cumeadas, descidas, travessias em sobe-e-desce e ligações por estrada ou trilho.

Os abastecimentos são a primeira divisão natural. Funcionam bem como pontos de planeamento porque definem a água, as calorias, o acesso da equipa de apoio e a pressão das barreiras horárias, e são também as referências a que se vai agarrar quando o cansaço apertar. Depois, sempre que o terreno mude de forma marcada, parta os troços mais longos entre abastecimentos. Um troço de 16 km com uma subida de 750 m seguida de uma descida rápida não se gere com um único ritmo: são duas contas diferentes.

Para cada secção, anote a distância, o desnível positivo e negativo, a inclinação média, a inclinação máxima sustentada, o tipo de piso, a altitude e a exposição. A inclinação média ajuda, mas pode enganar: uma média de 5% pode esconder um quilómetro plano, uma parede a 20% e uma descida. São a inclinação sustentada e a distribuição do terreno que lhe dizem se aquela secção se corre ou não.

Como estimar os trechos corríveis pela inclinação

A inclinação é o primeiro filtro e o mais rápido, mas não dá a resposta final.

Em piso firme e regular, a altitude moderada, a maioria dos atletas de trail treinados consegue manter uma corrida eficiente em subidas até cerca de 5%. Entre 5% e 8%, tudo depende da forma física, da duração da prova, da aderência e de a subida ser ou não contínua. Entre 8% e 12%, muitos atletas alternam corrida e caminhada. Acima dos 12%, sobretudo num ultra, a caminhada forte assumida é, na maioria dos casos, a opção mais inteligente.

Estes intervalos servem de referência para o planeamento, não são regras. Uma subida a 10% em terra batida pode correr-se melhor do que uma a 6% cheia de raízes, rocha molhada ou areia solta. Pode compensar correr uma rampa curta a 15% até ao topo se do outro lado houver uma descida rápida. Já uma subida de 40 minutos a 9%, perto do seu limiar aeróbio, pede uma decisão completamente diferente.

Pense em termos de custo energético. Se correr só lhe dá um ganho marginal de ritmo mas dispara a respiração, a frequência cardíaca e a carga nos quadríceps, o tempo que ganha é irrelevante e vai pagá-lo na secção seguinte. Uma caminhada forte e decidida guarda frescura suficiente para correr a cumeada, a descida ou o vale rolável que vêm depois.

Analise as subidas longas à parte

Uma subida com 8% de média ao longo de 6 km pode ter vários patamares onde dá para correr. Assinale-os. São oportunidades para mudar de andamento, aliviar os músculos e ganhar tempo sem ter de forçar nas zonas mais inclinadas.

Pela mesma lógica, uma descida não é corrível só porque desce. Uma descida inclinada e técnica pode obrigar a passos curtos, a travar constantemente e a escolher cada apoio. O relógio pode indicar uma pendente média rápida quando, na prática, o seu andamento está mais perto de uma caminhada controlada.

O piso e a técnica é que decidem

A inclinação mostra o que o mapa vê. O piso mostra o que os pés vão sentir.

Terra lisa, gravilha compactada, estradões florestais e singletrack aberto e bem batido são, regra geral, terreno onde se corre sem grandes dúvidas. Pedras soltas, trilhos em inclinação lateral, lama, areia solta, neve, raízes, lajes molhadas, passagens de ribeiros e ziguezagues apertados fazem cair a velocidade num instante. E mesmo que consiga avançar depressa, o terreno técnico exige tanta concentração que o desgaste acaba por ser elevado.

Recorra a fotografias da prova, descrições do percurso, cartografia 3D, relatos de edições anteriores e à análise do GPX para identificar as transições. Procure cumeadas expostas onde o vento pode comprometer os apoios, encostas viradas a norte que guardam neve ou lama e descidas que concentram muito desnível negativo em pouca distância. Se a organização disponibilizar um vídeo do percurso, veja-o como reconhecimento do terreno, não como entretenimento.

A exigência técnica também depende de quem corre. Um atleta à vontade a descer em montanha pode considerar totalmente corrível uma descida de pedra. Outro com menos experiência em terreno técnico terá de encarar o mesmo troço como uma progressão controlada. Construa o plano a partir das suas capacidades, não dos vídeos dos atletas da frente.

Conte com a altitude, a meteorologia e o momento da prova

Um trecho que se corre bem num dia de treino fresco pode passar a fazer-se a caminhar se começar acima dos 2.700 m e em pleno sol. A altitude reduz a intensidade que consegue sustentar. O calor aumenta as necessidades de hidratação e torna as subidas íngremes mais penosas. A chuva pode transformar terra inofensiva num problema de aderência. E o vento pode tornar lenta uma cumeada exposta, por mais suave que o perfil pareça.

O momento da prova pesa tanto quanto o terreno. Nas primeiras secções, seja conservador na estimativa, porque a contenção no início determina o que lhe resta para o fim. Uma subida que consegue correr ao quilómetro 6 pode continuar a ser má ideia se ainda tiver 3.000 m de D+ pela frente.

Nas provas longas, classifique cada secção duas vezes: com as pernas frescas e com as pernas cansadas. Uma cumeada em sobe-e-desce pode ser 90% corrível no primeiro terço da prova, 60% a meio e, na parte final, uma secção a alternar corrida e caminhada. É bem mais útil do que fingir que vai manter o mesmo ritmo da partida à meta.

Se contar correr de noite, reveja em baixa, mais uma vez, o terreno técnico. No escuro, os apoios são mais lentos, a orientação é mais difícil e há um desgaste mental que não aparece no perfil altimétrico.

Troque o palpite por um plano de corrida e caminhada

Depois de identificar o terreno que, em princípio, se corre, atribua a cada secção um nível de esforço e uma forma de progressão. Mantenha tudo simples o suficiente para conseguir cumprir sob pressão.

Numa subida corrível, a instrução pode ser: correr as partes mais suaves, caminhar todas as rampas e nunca entrar na zona vermelha. Numa subida íngreme: caminhada forte desde a base, mãos no terreno quando for preciso, comer a meio e correr só a chegada ao topo. Numa descida técnica: controlo total nas pedras e passada mais solta quando o trilho alisar.

Evite intervalos fixos, a não ser que se ajustem ao terreno. Nove minutos a correr e um a caminhar pode resultar numa subida regular por estradão, mas deixa de fazer sentido num terreno que passa de 4% para 18% a cada poucas centenas de metros. As referências do próprio terreno costumam resistir melhor: correr o plano, caminhar as curvas mais inclinadas, voltar a correr depois do ribeiro, recompor-se no colo.

Um bom teste é perceber se consegue comer e beber em andamento. Se uma secção é realmente corrível e, ao mesmo tempo, tranquila o suficiente para se alimentar, costuma ser um ótimo sítio para ganhar tempo sem desperdiçar energia. Se a correr não consegue alimentar-se ou sente o estômago às voltas, a secção é provavelmente mais dura do que o perfil deixa adivinhar.

Transforme o terreno corrível em tempos de passagem realistas

Não calcule o tempo entre abastecimentos a partir de um único ritmo médio. Estime-o por tipo de terreno e acrescente depois o custo das transições. O ritmo de corrida em trilho rolável, a velocidade vertical a caminhar em subidas longas e o ritmo a descer em terreno técnico devem ser calculados cada um à sua maneira.

Por exemplo, um troço de 10 km entre abastecimentos pode incluir 3 km de trilho corrível, 1,5 km a subir com 350 m de D+, 3 km de descida técnica e 1,5 km em sobe-e-desce. Atribua a cada parte uma estimativa realista, com base nos seus dados de treino e em terrenos semelhantes. Some tempo para encher os frascos, comer, ir à casa de banho, hesitar na orientação e para o inevitável abrandamento depois de uma subida dura.

Se tiver treinos registados em inclinações e pisos semelhantes, comece por esses dados. O esforço de prova, a altitude e a fadiga acumulada continuam a exigir margem, mas o seu próprio histórico vale mais do que qualquer tabela de ritmos genérica. Com os dados do percurso organizados por abastecimento, segmento de desnível e transição de terreno, a TrailSight ajuda a transformar esses detalhes num plano que pode levar, de facto, para a linha de partida.

Confronte as suas estimativas com as barreiras horárias, mas não tente fugir-lhes a correr terreno que devia ser feito a caminhar. Procure antes os trechos claramente corríveis, onde consegue avançar com eficiência. É aí que se ganha a margem sobre o relógio.

Ensaie as decisões antes do dia da prova

A melhor estimativa é a que foi posta à prova no terreno, não a que fica bonita no ecrã. Nos treinos longos, habitue-se a passar da corrida à caminhada antes de ser forçado a isso. Escolha uma subida longa, compare corrida e caminhada forte ao mesmo esforço percebido e repare no que acontece depois à respiração e às pernas.

Treine descidas com os quadríceps já cansados. Treine a alimentação em terreno em sobe-e-desce. Se a sua prova tiver altitude, calor, bastões, secções noturnas ou rocha escorregadia, inclua essas condições sempre que puder. Está a treinar a capacidade de decisão que sustenta o plano, não apenas o motor aeróbio.

No dia da prova, encare as estimativas como uma base de trabalho. As condições podem torná-las mais otimistas ou deitá-las por terra. O atleta preparado lê o terreno, ajusta cedo e guarda as pernas para correr forte onde isso realmente compensa.

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